Balança & Espada

"A justiça tem numa das mãos a balança em que pesa o direito, e na outra a espada de que se serve para o defender. A espada sem a balança é a força bruta; a balança sem a espada é a impotência do direito" (JHERING)



Jurisprudência

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

ANSIEDADES

Por Rosely Sayão

Já que as férias da criançada estão chegando ao fim, quero convidar você, caro leitor, a refletir sobre alguns pontos da vida de nossas crianças. Ao final do ano passado, a coordenadora de uma escola conversou comigo a respeito do aumento do número de crianças com problemas emocionais no início do ensino fundamental.
Ela estava acompanhando, na época, duas crianças de nove anos que não conseguiam entrar na escola, mesmo chegando até lá, e que tinham crises que as faziam transpirar, tremer e ter taquicardia se a mãe ou a educadora escolar insistisse para que descessem do carro. Essas crises, que ela chamou de pânico, só aconteciam nos horários de ir para a escola, e ambas as crianças já estavam em tratamento psiquiátrico e psicológico.
Além dessas duas, ambas meninas, ela também falou de três meninos, entre oito e 10 anos, que passaram a fazer pequenas quantidades de xixi ou cocô nas calças. Em conversa com os pais desses meninos, eles contaram que, em casa, o fato também estava acontecendo e já haviam tentado diversas estratégias para resolver a questão, sem êxito algum.
Fiquei cismada, procurei professores e coordenadores e ouvi de todos a mesma coisa: em todas as salas havia pelo menos duas crianças com problemas emocionais. Por que será?
Vamos deixar de lado as questões pessoais e familiares de cada uma dessas crianças e tentar entender esse fenômeno de um modo geral.



As crianças estão sendo submetidas, cada vez mais precocemente, a provas, exames, avaliações de diversos tipos, e isso gera ansiedade, não é? Se um adulto, ao fazer uma prova, defesa de teste, entrevista de emprego ou qualquer coisa semelhante sente-se pressionado, ansioso, imagine, caro leitor, uma criança! Ela está em processo de formação e não tem ainda recursos pessoais para administrar sua ansiedade e, por isso, ela surge com algum sintoma, como nos casos citados.
Essa ansiedade que se manifesta em situações de avaliação é fruto da pressão tanto da escola quanto da família. Desta última principalmente, que quer, cada vez mais, filhos que sejam alunos exitosos e que gostem de estudar, pois acreditam que isso garantirá um futuro pessoal confortável. Não garante!
Nenhuma criança merece passar por provas antes dos dez anos! Algumas escolas já entenderam isso e suprimiram as provas nos primeiros anos da vida escolar. Além disso, nenhuma criança pode ser tratada como o adulto que deverá ser. Criança precisa ter vida de criança, e é justamente isso que pode ajudar no seu futuro.
Um outro ponto que precisa ser considerado, principalmente no caso das crianças com incontinência urinária, é o da cultura da instantaneidade em que elas estão sendo criadas. Tudo é para agora, para já, e os pais fazem o possível para que isso aconteça. Muitas crianças simplesmente não sabem esperar. Por nada. Nem pelo tempo para ir ao banheiro. Isso não é bom para elas.
Para viver é preciso coragem, paciência, perseverança e resiliência, entre outras coisas. Temos focado tanto, tanto no aprendizado dos conteúdos escolares pelos mais novos, que pouco tempo sobra para sua formação pessoal, como no caso das características descritas acima. Isso, sim, poderá afetar a vida deles no futuro! E não será para o seu bem.

Publicado no jornal Folha de São Paulo de 24 de janeiro de 2017,, caderno cotidiano, B2

O HOMEM DO SÉCULO 21

Por Luiz Felipe Pondé

O que será o homem do século 21? Refiro-me a gênero, e não à espécie. Mais especificamente ao homem heterossexual. Aquele que as mulheres procuram, mas não acham mais à mão. O homem heterossexual é capaz de vida inteligente? Ou só pensa em comer a mulherada?
Minha hipótese é que, à medida que ele ficar mais "inteligente", menos ele se interessará em comer a mulherada. Mais ele ficará interessado em si mesmo. Mesmo porque a mulherada está bem fácil de comer. Mais ele se perguntará, de fato: "O que eu quero pra minha vida?". Isso em vários momentos da vida.
Essa pergunta masculina terá um efeito tão violento na cultura quanto a emancipação feminina. Casamentos acabarão. Filhos desaparecerão. O mercado de trabalho sofrerá com decisões masculinas que afastarão os homens de carreiras corporativas e os aproximarão de trabalhos com mais sentido e menos estresse.
A "opressão" sobre o homem heterossexual vai acabar e, quando isso acontecer, as meninas ficarão bem perdidas em suas certezas desde os anos 1960 do século 20.
Essa pergunta masculina acerca do que ele de fato quer na vida empurrará as meninas para a experimentação lésbica por puro desespero. A conta afetiva do sofrimento masculino com a emancipação feminina finalmente chegou. E será cara. Quem continuar a encher o saco achando que tudo é "culpa do patriarcalismo" será identificada em locais públicos como responsável pelo fracasso da reprodução da espécie.
Eu sei que existe aquela piada sobre como é impossível satisfazer uma mulher e como é simples satisfazer um homem. Basta trazer uma cerveja e vir pelada. Lamento dizer, mas isso nunca foi verdade. Melhor se ela vier vestida de executiva de sucesso com saia justa. Ou vier vestida de enfermeira ou comissária de bordo. Ou, no mínimo, de calcinha e salto alto. Um batom vermelho na boca para ser borrado.
Sim, vai ficar difícil entender nós outros. Difícil também porque o feminismo histérico (aquele que entra embaixo dos lençóis) fez da histeria laço social. E muitos psicanalistas tontos olham e não sabem mais reconhecer a histeria quando a ela diz "bom dia, estou aqui na sua cara!".
A emancipação feminina e a histeria (que não são necessariamente a mesma coisa) como laço social obrigaram ao homem a se "mexer". Ele agora é obrigado a assumir vocabulários subjetivos (em homenagem a moçada que curte o Richard Rorty), antes privilégio (ou maldição) do mundo feminino. O homem evoluiu (sim, sou darwinista) num ambiente mais objetivo de caça, mais violento, com menos possibilidade de conversa.
Daí ele ser, na maioria dos casos, mais silencioso e travado.
As meninas terão que se esforçar um pouco mais para conseguir um espécime que ache que elas valem algum investimento. Afora aqueles que simplesmente ficarão meio "frouxinhos", sem saber se aderem ou não à moda trans, querendo ser mais feministas do que a pior das feministas (não tem coisa mais chata do que homem feminista...), incapazes de tomar alguma atitude, inseguros, que tremem diante da possibilidade de que alguém os chame de "machistas", tem também os babacas de sempre que ainda não entenderam que as meninas estão mais bravas hoje em dia.
Na "ponta das meninas", o fato é que elas estão meio fálicas. E não existe coisa mais chata do que uma mina fálica. A espécie seguramente acabará pelas mãos de um "casal" em que ele será um feminista e ela uma fálica. Deus dirá: "De fato devo sair do mercado criativo, deu errado meu projeto, talvez investir de novo nos dinossauros?".
Existe também a possibilidade (e muitos têm feito isso no Ocidente) de buscar opções mais ao leste da Europa. Uma mina de minas mais doces, carinhosas (além de maravilhosamente lindas), afetivas e atenciosas, ainda não estragadas pelo capitalismo e sua histeria fálica.
A mulher do século 21 que quiser um homem inteligente para ela terá que reaprender a relaxá-lo, ao invés de simplesmente acusá-lo de ser "opressor". Menos histeria e mais generosidade. Menos cobrança e mais cuidado. A mulher livre exige respeito, o homem livre exigirá doçura.

Publicado no jornal Folha de São Paulo de 23 de janeiro de 2017, caderno Ilustrada, C6