Balança & Espada

"A justiça tem numa das mãos a balança em que pesa o direito, e na outra a espada de que se serve para o defender. A espada sem a balança é a força bruta; a balança sem a espada é a impotência do direito" (JHERING)



Jurisprudência

sábado, 21 de janeiro de 2017

DOIS CORAÇÕES E UMA CABANA

Por Contardo Calligaris

"Due cuori e una capanna" é uma expressão italiana (ou especialmente popular na Itália). Seu sentido mais óbvio é que duas pessoas que se amam, para ter uma vida boa, não têm necessidade de riquezas: podem até morar numa barraca –só o básico para se proteger do frio, do sol e da chuva. Talvez nem isso. "Dois corações e uma cabana" significa que o amor é tudo de que precisamos.
De fato, se você estiver passando por um momento de vacas magérrimas, não há dúvida de que um casal companheiro, apaixonado e amigo pode ser de grande ajuda.
Mas o sentido da expressão vai além das contas do fim do mês. "Dois corações e uma cabana" significa também que um casal, rico ou pobre, SE basta, ou seja, não precisa de mais ninguém.
"Passageiros", de Morten Tyldum (em cartaz), é um blockbuster excelente –também pelas reflexões que ele introduz inevitavelmente.
A primeira (sem perigo de spoiler) é: "Será que um casal pode se bastar?". Você viveria 30, 40, 50 anos só com seu companheiro (ou sua companheira)? Cuidado, repito: literalmente SÓ com seu companheiro ou companheira.
Como fica a vida do casal sem vizinhos, queridos ou incômodos? E sem colegas de trabalho, também queridos ou incômodos? Como será a vida na "Casa no Campo" de Elis Regina sem os amigos (sejam eles do peito ou não)?
Alguém poderia pensar que, sem nenhum outro, é mais fácil o casal ficar junto para sempre –sem tentações, seduções, distrações"¦
Mas a questão não é só se um casal se basta sem mais ninguém (para amar, para admirar ou para detestar, tanto faz). A questão é também: será que um casal se aguenta se o único propósito da vida de ambos for, justamente, viver juntos e se amar?
Os protagonistas de "Passageiros" fazem parte de milhares de colonos que dormem hibernados numa nave espacial que chegará a sua destinação (um mundo novo, uma colônia) depois de uma viagem de 120 anos.



Ora, eles acordam 90 anos antes do momento previsto, e não há como voltar a dormir. Pedir ajuda a alguém na Terra levaria o tempo de uma vida inteira.
Agora, por que se queixar? Não é a realização do ideal dos dois corações com uma cabana? Não é isso que os amantes sempre deveriam querer: apostar na felicidade a dois, como se os outros não existissem?
Uma questão volta regularmente quando um casal se interroga sobre o que não está funcionando: a vida social atrapalha ou enriquece a relação?
Os membros de um casal podem se olhar reciprocamente nos olhos: é o olhar patético, tocante e um pouco ridículo. Eles podem olhar na mesma direção (e não um para o outro): é o olhar atarefado, numa obra comum. Eles podem olhar cada um numa direção que lhe é própria: é o olhar desejante (cada um segue seu desejo e apenas gosta de ter o outro do seu lado na sua empreitada, que é diferente da do outro).
Dos três olhares, o mais perigoso é o patético, em que cada um seria o propósito da vida do outro. Se olhar muito tempo olho no olho é quase sempre um bom começo para se estrangular.
Agora, outra reflexão (também sem spoiler). Minha avó dizia que, quando um casal se junta, uma das famílias perde e a outra ganha mais um filho ou uma filha.
Na verdade, é normal que um amor nos arranque de uma vida que estava relativamente pronta, de um caminho já traçado.
Por amor a gente pode renunciar a profissão, filhos, família, outro casamento, sonhos, nação, religião"¦
O amor, em suma, é um grande fator de mudança –se não o maior.
Mais de uma vez, um amor me fez mudar de país, de língua e de caminho. Os amores me afastaram de minha família de origem. Lamento?
Não sei, talvez. Se tivesse ficado com minha primeira mulher, seria fotógrafo. Se tivesse ficado com a mãe de meu filho, seria psicanalista na França. Enfim, não sei se o amor nos transforma, mas ele quase sempre nos engaja por novos caminhos.
Os amores, numa palavra só, arrebatam –um pouco por sua virulência e um pouco (suspeito) por nossa própria vontade de sermos arrebatados, de encontrar razões para mudar: "Leve-me para longe daqui. Salve-me da família, do hábito, do destino já escrito para mim".
Por isso mesmo, quando o casal acaba ou simplesmente quando ele corre perigo, sempre tendemos a acusar o outro pela mudança que ele produziu em nós: "Mas por que você me tirou de onde eu estava?".

MASTURBAÇÃO

Por Francisco Daudt

"É fazer amor com a pessoa que você mais ama", nas palavras de Woody Allen. Já Stanislaw Ponte Preta dizia que a vantagem dela era "não ter que levar em casa depois".
O que parece anedota contém dois princípios que fazem da masturbação o que ela é: segurança e independência. Sua história individual se inaugura quando um bebê descobre que sugar o dedo acalma e satisfaz enquanto "a coisa real" não acontece. É assim que ele tolera a vida real: recolhendo-se ao autoerotismo.
Nossa vida inteira será assim, um zigue-zague permanente entre o investimento no mundo externo e o recolhimento ao nosso refúgio interno. Para se ter ideia da importância desse recolhimento, uma boa maneira de se torturar alguém é privá-lo do sono. Se nós não pudermos nos refugiar a um colo autoerótico, independente e seguro –o sono–, não toleraremos viver. Chegada a noite, nós desligamos o mundo externo: luz, temperatura e silêncio, buscamos uma posição confortável e nos entregamos a um devaneio gostoso que nos embale como um regaço acolhedor. É nessa situação que recarregamos nossas baterias para poder reinvestir no mundo. O sono poderia ser chamado de vício solitário pelo tempo que dedicamos a ele –um terço da vida– se a definição de vício não incluísse o prejuízo de nossos principais interesses. Mas não, o sono é a maior demonstração de que o autoerotismo é essencial para se viver.
Voltando à masturbação genital, ela desempenha um papel fundamental nessa situação desgraçada em que a mãe natureza nos meteu: nós somos animais sexuados, ou seja, nós precisamos negociar com o mundo externo para a reprodução acontecer (as bactérias não sofrem disso). Essa negociação trabalhosa só terá sucesso se nós conhecermos minimamente o nosso desejo. Sem isso, não haverá nem motivação, nem ereção. É onde entra o autoerotismo: só o devaneio (ou o filme pornô) certo acende o tesão, é desse jeito que vamos aprendendo sobre nós.
Dito assim, pareceria que a masturbação é só para homens, mas o que vejo na clínica é que as mulheres muitas vezes só descobrem o orgasmo através dela. Basta pensar que, como praticamente não há homem que nunca tenha se masturbado (Gore Vidal dizia que, se frequência é critério de normalidade, então a masturbação é a vida sexual normal dos homens), não há homem que não conheça o orgasmo, que é um circuito cerebral aprendido com o autoerotismo.
Por fim, a masturbação vicia? Qualquer coisa que nos interesse tem o potencial de nos viciar: internet, WhatsApp, celular, comida etc. Mas em 40 anos de clínica só encontrei um único cliente viciado nela. Ela prejudicava seus principais interesses: ele perdia trabalho, tinha largado o mundo de lado. Usava a masturbação como remédio para aliviar sua depressão (o álcool continua sendo o "remédio natural" mais usado).
Não é de espantar que quem queira controlar as pessoas queira controlar a masturbação: fazê-la contra a lei, censurar a internet, torná-la pecado mortal, dizer que ela adoece ou faz crescer pelos nas mãos. Ela é uma grande professora de independência e autonomia. Muito subversiva, portanto.

Publicado no jornal Folha de São Paulo de 18 de janeiro de 2017, caderno cotidiano, B2