Balança & Espada

"A justiça tem numa das mãos a balança em que pesa o direito, e na outra a espada de que se serve para o defender. A espada sem a balança é a força bruta; a balança sem a espada é a impotência do direito" (JHERING)



Jurisprudência

sábado, 29 de janeiro de 2022

APRENDENDO COM LEONARDO DA VINCI

Leonardo foi autodidata, alguém que trabalhou para pavimentar o caminho rumo à genialidade. Então, mesmo que jamais sejamos capazes de equiparar seus talentos, podemos aprender com ele e tentar ser um pouco mais como ele era. Sua vida nos oferece lições riquíssimas:

1) Seja curioso, incansavelmente curioso.

2) Busque conhecimento pelo simples prazer da busca.

3) Conserve a capacidade das crianças de se maravilhar.

4) Observe.

5) Comece pelos detalhes.

6) Veja o que está invisível.

7) Mergulhe no desconhecido.

8) Distraia-se.

9) Respeite os fatos.

10) Procrastine.

11) Faça com que o perfeito seja inimigo do bom.

12) Pense visualmente.

13) Evite fechar horizontes.

14) Faça com que seu alcance seja maior do que sua compreensão.

15) Alimente sua fantasia.

16) Crie para você, não só para os patronos.

17) Trabalhe em conjunto.

18)Faça lista.

19) Faça anotações.

20) Esteja aberto ao mistério.

Leonardo da Vinci — Walter Isaacson (tradução de André Czarnobai, 1ª ed., Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017, páginas 550-555).






O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA - José Saramago

Páginas 40 e 41:



"...quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és. O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim (...) dizia que todo homem é uma ilha (...) Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos da ilha, Se não saímos de nós próprios (...).



O Conto da ilha desconhecida — José Saramago (São Paulo: Companhia das Letras, 1998, 63 páginas).





sexta-feira, 13 de agosto de 2021

SIDARTA - Hermann Hesse (último capítulo)

PROCURA
"Quando alguém procura muito – explicou Sidarta – pode facilmente acontecer que seus olhos se concentrem exclusivamente no objeto procurado e que ele fique incapaz de achar o que quer que seja, tornando-se inacessível a tudo e a qualquer coisa porque sempre só pensa naquele objeto, e porque tem uma meta, que o obceca inteiramente. Procurar significa: ter uma meta. Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma. Pode ser que tu, ó venerável, sejas realmente um buscador, já que, no afã de te aproximares da tua meta, não enxergas certas coisas que se encontram bem perto dos teus olhos".

SABEDORIA
"a sabedoria não pode ser comunicada. A sabedoria que um sábio quiser transmitir sempre cheirará a tolice".
(...)
"Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos achá-la, podemos vivê-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la".

TEMPO E PERFEIÇÃO
"Nenhuma criatura humana, nenhuma ação é inteiramente Sansara nem inteiramente Nirvana. Homem algum é inteiramente santo ou totalmente pecador".
(..)
"— Presta atenção, meu querido, muita atenção! O pecador que eu sou, e que tu és, é pecador, mas um dia voltará a ser Brama. Em determinado momento alcançará o Nirvana e será o Buda. Mas, olha bem: esse 'um dia' é apenas uma ilusão, um termo convencional. O pecador não se encontra a caminho do estado de Buda; não está em plena evolução, muito embora o nosso cérebro seja incapaz de imaginar as coisas de outro modo. Pelo contrário, no pecador já se acha contido, hoje, agora mesmo, o futuro Buda. Todo o seu porvir já está presente. Tu deves respeitar na pessoa desse pecador, na tua própria pessoa, na de qualquer homem, o Buda em botão, o Buda possível, o Buda oculto. O mundo, amigo Govinda, não é imperfeito e não se encaminha lentamente rumo à perfeição. Não! A cada instante é perfeito. Todo e qualquer pecado já traz em si a graça. Em todas as criancinhas já existe o ancião. Nos lactentes já se esconde a morte, como em todos os moribundos há vida eterna. A homem algum é dado perceber até que ponto o seu próximo já avançou na senda que lhe coube. No salteador e no jogador, o Buda espera a sua hora, e no brâmane, o salteador. Na meditação profunda oferece-se-nos a possibilidade de aniquilarmos o tempo, de contemplarmos, simultaneamente, toda a vida passada, presente e futura. Então tudo fica bem; tudo, perfeito; tudo, Brama. Por isso, o que existe me parece bom. A morte, para mim, é igual à vida; o pecado, igual à santidade; a inteligência, igual à tolice. Tudo deve ser como é. Unicamente o meu consenso, a minha vontade, a minha compreensão carinhosa são necessários para que todas as coisas sejam boas, a ponto de somente me trazerem vantagens, sem nunca me prejudicarem. No meu corpo e na minha alma fiz a experiência de quanto carecia do pecado, da volúpia, da cobiça de bens materiais, da vaidade, de quanto precisava até do mais abjeto desespero, para que aprendesse a desistir da minha obstinação, a querer bem ao mundo, a cessar de compará-lo a qualquer outro mundo imaginário, que correspondesse aos meus desejos, a algum tipo de perfeição brotado do meu cérebro e para que, deixando-o tal como é, me limitasse a amá-lo e a gostar de fazer parte dele…".




TRANSFORMAÇÃO
"— Isto é uma pedra, mas daqui a algum tempo talvez seja terra, e da terra se transformará numa planta, ou num animal, ou ainda num homem. Em outra época, quem sabe, eu teria dito: 'Essa pedra é apenas uma pedra. Não tem nenhum valor. Pertence ao mundo da Maia. Como, no entanto, pode acontecer que, no decorrer do ciclo das metamorfoses, ela se converta num ser humano e adquira espírito, presto certa atenção a ela'. Eis o que, provavelmente, eu teria pensado naqueles tempos. Hoje, porém, raciocino assim: 'Esta pedra é pedra, mas é também animal, é também Deus, é Buda'. Não lhe tributo reverência ou amor, porque ela um dia talvez possa se tornar isso ou aquilo, senão porque é tudo isso, desde sempre e sempre. E precisamente por ser ela uma pedra, por apresentar-se-me como tal, hoje, neste momento, amo-a e percebo o valor, o significado, que existe em qualquer uma das suas veias e cavidades, nos amarelos e nos cinzas da sua coloração, na sua dureza, no som que lhe extraio ao bater nela, na aridez ou na umidade da sua superfície. Há pedras que, ao tato, dão-nos a impressão de tocarmos em sabão ou óleo. Outras são como folhas ou como areia. Cada qual é diferente e profere o Om à sua maneira peculiar. Todas elas são Brama, mas, simultânea e especialmente, são pedras, quer possam ser oleosas ou viscosas. Justamente isso me agrada. Parece-me maravilhoso, realmente digno de veneração... Não me obrigues, porém, a falar mais. As palavras deturpam sempre o sentido arcano. Todas as coisas alteram-se, logo que lhes pronunciamos o nome. Então se tornam levemente falsas e ridículas. Pois é. Mas, olha, até isso acho bem feito. Aprovo inteiramente e com o maior prazer o fato de que aquilo que para uma pessoa é um tesouro e uma grande sabedoria represente para os demais homens, rematada tolice.

PALAVRAS
"Sei amar uma pedra, ó Govinda, e também uma árvore ou um pedacinho de sua casca. São coisas, e coisas podem ser amadas. Mas não posso amar palavras. Por isso não me servem as doutrinas. Não têm nem dureza nem maciez, não têm cores nem arestas, nem cheiro nem sabor. Não têm nada a não ser palavras. Talvez seja esta a razão por que não encontres a paz: o excesso de palavras. Pois, Govinda, também a redenção e a virtude, o Sansara e o Nirvana: são meras palavras. Não existe coisa alguma que seja Nirvana. O que existe é apenas a palavra Nirvana.

IDEIA
Respondeu Govinda:
- Não, não meu amigo, Nirvana não é apenas uma palavra. É uma ideia.

Mas Sidarta prosseguiu:
- Uma ideia. Pois não. Confesso-te, meu caro, que não faço muita distinção entre palavras e ideias. Para falar com toda a franqueza: não ligo grande importância às próprias ideias. As coisas têm para mim muito maior significado.
Nessa balsa aí, para dar-te um exemplo, houve um homem, meu predecessor e meu mestre, que durante logos anos, à sua maneira singela, cria no rio e em nada mais. Percebera que a voz do rio se dirigia a ele. Dela aprendia. Ela educava-o e instruía-o. O rio parecia-lhe um deus. Por muito tempo ignorava esse homem que qualquer aragem, qualquer nuvem, ou ave, ou besouro, são igualmente divinos e sabem tanto, podem ensinar-nos tanto quanto aquele adorado rio. Ora, quando esse santo se encaminhou à selva, sabia tudo, sabia mais do que tu e eu, sem professor, sem livros, unicamente por ter acreditado no rio.

REALIDADE E AMOR
"Replicou Govinda:
— Mas, dize-me: aquilo que chamas de coisas é mesmo algo real, algo essencial? Não será apenas uma ilusão da Maia, simples miragem, pura aparência? Essa tua pedra, tua árvore, teu rio, são ou não são realidades?

— Esse problema — disse Sidarta — não me preocupa tampouco. Quanto a mim, as coisas podem ser mera aparência, uma vez que, neste caso, também eu sou aparência, e assim serão elas sempre meus iguais. Eis o que as torna para mim tão caras e venerandas: são como eu. Por isso posso amá-las.
E com isso te comunico uma doutrina que te fará rir, ó Govinda: tenho para mim que o amor é o que há de mais importante no mundo. Analisar o mundo, explicá-lo, menosprezá-lo, talvez caiba aos grandes pensadores. Mas a mim me interessa exclusivamente que eu seja capaz de amar o mundo, de não sentir desprezo por ele, de não odiar nem a ele nem a mim mesmo, de contemplar a ele, a mim, a todas as criaturas com amor, admiração e reverência.

— Compreendo — disse Govinda. — E, no entanto, é precisamente isso o que o Augusto qualificava de ilusão. Ele proclamou a benevolência, a tolerância, a compaixão, o comedimento, mas nunca o amor. Pelo contrário, proibiu-nos ligarmos o nosso coração amorosamente às coisas terrenas.

— Sei disso — tornou Sidarta, cujo sorriso resplandecia como ouro. — Sei disso, ó Govinda. Imagina só: neste instante já nos enredamos na confusão das opiniões. Estamos em plena discussão a propósito de palavras. Pois bem, não posso negar que as palavras que proferi a respeito do amor estão em desacordo com os ensinamentos de Gotama. Justamente por isso desconfio tanto de quaisquer palavras, porquanto sei que essa divergência é apenas ilusão. Tenho certeza de estar concorde com Gotama. Como seria possível que Ele desconhecesse o amor; Ele que reconhecia a efemeridade e a fraqueza de toda a natureza humana e todavia amava os homens a ponto de devotar a sua longa e laboriosa existência à única tarefa de ajudá-los e ensiná-los. Também com relação a Ele, teu grande mestre, as coisas têm, a meu ver, mais valor do que as palavras. O gesto da sua mão me importa mais do que as suas opiniões. Não é nos seus discursos e nas suas ideias que se me depara a sua grandeza, senão unicamente nos seus atos e na sua vida.

Sidarta — Hermann Hesse (tradução de Herbert Caro, Rio de Janeiro: Record, 2020, 66ª edição, 173 páginas).

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

HOMENS QUE MATAM A EX


Por Contardo Calligaris
​

Vinte de outubro de 2018: depois de seis anos de separação, homem volta e mata a ex-namorada. Quinze de agosto de 2019: homem invade shopping e mata ex-namorada. Vinte e seis de janeiro de 2019: homem mata ex-mulher e depois se mata. Dois de abril de 2019: homem mata ex-namorada a tiros e tira a própria vida…

São as primeiras linhas do resultado de uma procura na internet com as palavras do título.


Um leitor, Alexandre Carvalho, estranha com razão “a enorme quantidade de assassinatos de mulheres por ex-noivos, ex-namorados, ex-maridos”.

Parece uma epidemia, em todas as classes sociais, todas as regiões do país e, de fato, no mundo afora.

Em culturas tradicionais, mulheres são assassinadas com mais frequência por parentes próximos, que as matam para preservar a “honra” deles. Mas a violência doméstica é internacional e intercultural, assim como o assassinato pelo ex, mesmo anos depois do fim da relação.

Veja uma reportagem recente da BBC: 1) a cada dia, em média, 137 mulheres são mortas por parentes ou parceiros, 2) o assassinato pelo ex acontece do Quênia à França.

Claro, as mulheres também matam seus parceiros, sobretudo como reação à violência e ao abuso. E é muito raro que elas matem um ex-parceiro; com uma pitada de humor negro, alguns dirão que elas preferem deixar o ex em vida e pedir indenização.



Frequentemente, o homem que se torna assassino de sua ex declara ter matado por amor. Em 2008, Ben-Ze’ev e Goussinsky publicaram “In the Name of Love” (Oxford Un. Press; “Em Nome do Amor: A Ideologia Romântica e suas Vítimas”). Eles defenderam a ideia de que a idealização romântica do amor é desastrosa: se o amor for tudo de que precisamos (como cantavam os Beatles), como reagiremos quando alguém nos retira, de repente, aquele “tudo”?

Ze’ev e Goussinsky, em suma, acreditam nos homens que declaram ter matado sua ex por amor: o problema seria que o amor idealizado os enlouquece.

Eu prefiro pensar que um amor possessivo, incapaz de renunciar a quem se separa de nós, talvez não seja amor, ou não deva ser reconhecido como tal.

De qualquer forma, o fato de que, praticamente, só os homens matam as suas ex mostra, neles, uma dependência afetiva que, curiosamente, é quase sempre atribuída às mulheres. Os homens (sobretudo os de botequim) tendem a mostrar sua face macho, “tanto faz, sai uma mulher, entra outra”, enquanto, segundo eles, as mulheres ficariam “choramingando” a separação.

Nesse sentido, fato interessante, que a clínica mostra: em geral, as mulheres são as primeiras a decretar a falência do casal. Mais fatos que insistem em dizer exatamente o contrário do que dizem os homens de botequim.

Uma pesquisa ampla, feita na Universidade Johns Hopkins em 1981 com 4.000 viúvos e viúvas, examinou a relação entre viuvez e esperança de vida. E chegou a várias conclusões relevantes. 1) Para a mulher, a viuvez mal tem consequências, ou seja, uma vez viúva, ela vive em média o que viveria se o marido estivesse ainda vivo. 2) Para os homens, a viuvez é desastrosa: os viúvos entre 55 e 65 anos veem sua taxa de mortalidade aumentar de 60% acima da taxa dos homens casados na mesma idade. Remédio, especialmente para os homens: a esperança de vida não é encurtada pela viuvez se houver um novo casamento dentro de um ano.

Não encontrei o link ao estudo de Johns Hopkins, mas achei uma extensa apresentação no New York Times da época.

A conclusão, irresistível e contrária ao machismo dominante, é que a dependência afetiva de um homem é maior do que a de uma mulher.

Agora, o assassinato da ex, que pipoca mundo afora nas últimas décadas, parece ter também outra causa, muito antiga, mas que é reavivada hoje pela própria liberdade que as mulheres conquistaram. De que se trata?

Para muitos homens, a ideia de que a mulher tenha um desejo próprio é uma abominação, mais um truque do demônio. “E, veja bem, se ela for embora de mim, é para desejar com outro.” O ciúmes aqui é o de menos. O que importa é o princípio: como assim “desejar”?

No lindo texto que conclui “Tomo Conta do Mundo: Conficções de uma Psicanalista” (ed. Arquipélago), Diana Corso lembra a fuga de casa de Norma, a protagonista de “Casa de Bonecas”, de Ibsen. A fuga de Norma, mais de cem anos atrás, parece abrir uma nova era para as mulheres. Concordo, mas, cuidado, na porta da casa de Norma, do lado de fora, ainda há atiradores que preferem vê-la morta a livre.

*Publicado em jornal Folha de S.Paulo, de 22 de agosto de 2019, C6.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Osesp apresenta a maior obra de Bach em extensão e grandiosidade


Por Sidney Molina.

“O mito da morte de deus é trágico”, escreveu Eudoro de Sousa (1911-87). Encenadas desde a antiguidade, as versões do mito da humanização do divino e de seu sacrifício redentor podem assumir formas que abrandam os limites entre arte, religião e filosofia.

Concebida por Johann Sebastian Bach (1685-1750) para o culto luterano e estreada na Igreja de São Tomás, de Leipzig (Alemanha), há exatos 292 anos (em 11 de abril de 1727, então uma Sexta-Feira Santa), “A Paixão Segundo São Mateus” será apresentada a partir desta quinta (11) pela Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado) com regência de Nathalie Stutzmann.

A francesa Nathalie Stutzmann - Isabela Guasco/Divulgação


A obra supera em extensão e grandiosidade qualquer outra escrita pelo compositor. São duas orquestras, dois coros, coro infantil e seis cantores solistas, num espetáculo-ritual de quase três horas de duração (haverá intervalo).

Após a morte de Bach, a “grande paixão” somente seria ouvida um século mais tarde, em 1829, quando Felix Mendelssohn (1809-47), aos 20 anos de idade, regeu uma performance em Berlim. Desde então não parou de ser estudada pelos especialistas e nunca saiu do radar para as celebrações musicais da Semana Santa.

Tecnicamente, a obra é um tipo de oratório, que por sua vez se assemelha, em muitos aspectos, a uma ópera: há teatralidade, os cantores solistas encarnam os protagonistas do drama sacrificial, mas ao contrário da ópera, não há cenários, figurinos nem atuação cênica dos personagens.

Entre eles destacam-se o próprio evangelista Mateus (o narrador, a cargo do tenor), cujos recitativos (espécie de canto falado) são extraídos diretamente dos capítulos 26 e 27 do texto bíblico. Há também Jesus, a voz grave que ressoa sustentada por um efeito especial das cordas no acompanhamento. Pedro, Pilatos e outros personagens surgem ainda com falas próprias.

Outra distinção importante é entre os coros, trechos que frequentemente evocam a reação da turba diante dos acontecimentos, e os corais, breves hinos luteranos harmonizados por Bach. Um deles, “O Haupt voll Blut und Wunden” (Oh, cabeça cheia de sangue e feridas) surge sutilmente alterado em diferentes momentos, o que o faz assumir uma função de “condutor da emoção” do ouvinte.

Para além de personagens, orquestras, coros e corais, há as árias, que são trechos musicalmente mais desenvolvidos —canções solistas sobre poemas (escritos por Christian Friedrich Henrici, o libretista de Bach), e que contrastam com o texto das escrituras.

A ária “Erbarme dich” (Tem piedade de mim), com solo de contralto em diálogo com violino, foi utilizada como tema de abertura e final de “O Sacrifício” (1986), premiado filme do russo Andrei Tarkovski (1932-86).

Apenas a morte consuma a humanização do divino. Na cruz, perto do final, Jesus usa o idioma hebraico para se dirigir a um deus agora distante, enquanto Bach retira o acompanhamento instrumental que antes distinguia a sua fala. Não há ressurreição: à margem da tragédia, resta tão só um lapso de vida a viver.

*Publicado em jornal Folha de São Paulo de 15 de abril de 2019, caderno ilustrada, C6.

sábado, 23 de março de 2019

NUDEZ CASTIGADA

Por Cody Delistraty

Resumo: O austríaco Egon Schiele retratou adolescentes nuas em desenhos e pinturas que ainda instigam debate sobre a linha que separa a arte da pornografia --e a inspiração da exploração.

*

O passar do tempo tende a confirmar as supostas transgressões cometidas por figuras históricas ou a absolvê-las. Mas Egon Schiele, cujo centenário de morte foi celebrado em museus de todo o mundo em outubro do ano passado, apresenta uma lente particular pela qual se pode refletir sobre a linha que separa a arte da exploração.

Egon Schiele (1890-1918) começou a receber meninas adolescentes em seu estúdio em Neulengbach, Áustria, por volta de 1910. Ali, a cerca de 50 quilômetros de Viena, ele tinha um pequeno ateliê de pintura com um jardim nos fundos. Meninos e meninas, muitos de origem socioeconômica mais pobre, iam passar tempo com Schiele e sua modelo e amante, Walburga Neuzil, que ele chamava de Wally.

Schiele tinha apenas 20 anos na época. Wally, 17. A idade de consentimento sexual era de 14 anos na Áustria (como ainda é hoje), e o relacionamento deles não provocava muita indignação.

O que gerava escândalo era o fato de Schiele pintar crianças e adolescentes que vinham a seu estúdio e, como seria registrado em seu mandado de prisão dois anos mais tarde, “não guardar nus eróticos em um lugar suficientemente seguro” —ou seja, expor adolescentes e crianças aos seus desenhos e pinturas supostamente pornográficos.

"Nu Feminino Sentado" (1914), de Egon Schiele, usada na capa da Ilustríssima - Luisa Ricciarini/Leemage

Em abril de 1912, Schiele foi preso, acusado de “seduzir” Tatjana Georgette Anna von Mossig, 13 anos. Filha de um respeitado oficial naval, Mossig, que vivia em Neulengbach, pedira a Schiele e Neuzil que a levassem a Viena para viver com sua avó. Como muitos adolescentes, ela queria escapar de sua cidade provinciana. O artista e sua amante concordaram em levá-la, mas, quando chegaram a Viena, Mossig mudou de ideia e quis voltar para casa, no que foi atendida no dia seguinte.

Enquanto isso, porém, o pai de Mossig fora à polícia acusar Schiele de sequestro e estupro de menor de idade. O fato de Schiele ser artista —e um artista que pintava mulheres mais jovens— ajudou a reforçar as suspeitas do pai. Schiele também foi acusado de imoralidade pública, por expor adolescentes à sua arte.

Quando os policiais chegaram para prendê-lo, levaram embora 125 de seus desenhos, que classificaram como “degenerados”. O juiz queimou um deles no tribunal, como gesto simbólico. Depois de as duas primeiras acusações —sequestro e estupro de menor— serem arquivadas, Schiele passaria apenas 24 dias cadeia, mas a acusação de degeneração acabou por acompanhá-lo e ser associada também ao seu legado.

O tempo costuma ou absolver ou confirmar as supostas transgressões de figuras históricas. Mas Egon Schiele ainda hoje é um enigma particular, devido às interpretações opostas feitas de sua arte.

Será que ele explorou adolescentes, retratando-os de modo pornográfico? Ou teria questionado a natureza do desejo e da adolescência sem prejudicar ninguém?

Egon Schiele


'Autorretrato', obra de 1910, de Egon Schiele /Divulgação
Schiele trabalhou precisamente no momento em que a decadência e os excessos do final do século 19 davam lugar ao conservadorismo que antecedeu a Primeira Guerra Mundial. “Degeneração” foi o termo que os nazistas utilizariam para descrever grande parte da arte moderna, desde obras de Vincent van Gogh (1853-1890) até as de Paul Klee (1879-1940) e Edvard Munch (1863-1944).

“Raças degeneradas”, “sexualidades degeneradas” —qualquer tipo de aberração que fugisse aos valores e identidades tradicionais, brancos e heterossexuais já começara a ser condenada pela alta sociedade austríaca na época em que Schiele começou a trabalhar.

Em 1905, Sigmund Freud (1856-1939) tentava combater a disseminação dessa ideia na consciência pública, escrevendo em seus “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”: “Pode-se perguntar que utilidade e que novo conteúdo possui realmente o diagnóstico de ‘degeneração’”.

Para o pai da psicanálise, tachar assim as obras de arte era uma artimanha política, sem fundamentação legítima. Por essa ótica, a prisão de Schiele em 1912 talvez possa ser vista sobretudo como uma declaração política feita em uma cultura em transformação.

Embora a transição social de decadência para conservadorismo tenha arrastado Schiele consigo, a arte dele era excepcionalmente ousada, mesmo para padrões de hoje. Nudez é nudez, mas quando é mostrada com as linhas belas, as cores doentias e a evocação emocional obtidas pelo artista, fica claro que também é arte, não pornografia. O aparente interesse por garotas pré-púberes, em especial, confere ao seu trabalho uma qualidade mais sombria pela qual ele é conhecido hoje.

'Egon Schiele - Morte e Donzela'


Noah Saavedra no papel do artista e Larissa Breidbach como Moa Mandu em ‘Egon Schiele - Morte e Donzela’ /Divulgação

Um dos métodos favoritos de Schiele para pintar ou desenhar uma modelo envolvia fazê-la deitar-se sobre um colchão no chão. Ele subia numa escada ou banco elevado e a retratava a partir do alto. Jane Kallir, marchande e curadora que editou o recente catálogo raisonné do artista, argumenta que dessa maneira dava-se autonomia às modelos.

“Ao omitir de seus desenhos qualquer detalhe do ambiente em volta e frequentemente fazer uma leitura vertical de figuras deitadas, Schiele criava um senso profundo de deslocamento espacial”, Kallir escreveu. “A tensão resultante entre a modelo e a borda do plano da imagem questiona a capacidade da última de conter a primeira. Mesmo pelos padrões de hoje, esses desenhos conferem às mulheres um grau incomum de autonomia sexual.”

Kallir admite que Schiele não era “o que chamaríamos de feminista”, mas poucos homens de Viena no início do século 20 o seriam. Ela especula também que suas modelos podem ter sido empoderadaspelos retratos hipersexuais que o artista fazia delas. “Essa sexualidade é realmente uma espécie de superpoder”, ela se pergunta, “ou a atração feminina inevitavelmente implica em render-se ao patriarcado?”.

Capturando um momento em que tanto o artista quanto a modelo lidam com uma forte tensão sexual —aquelas meninas desnudas com a sexualidade começando a aflorar, e Schiele literalmente olhando diretamente para elas a partir do alto—, os quadros não apenas eram estilisticamente inovadores como encerravam uma revelação social.

Assim como Hugh Hefner fundou a revista Playboy depois de ler sobre o relatório de Alfred Kinsey, cujas pesquisas constataram que os americanos pensavam mais sobre sexo e faziam muito mais sexo do que a “sociedade tradicional” parecia afirmar, Schiele colocou em evidência perturbadora a decadência subjacente da sociedade vienense.

No entanto, alguns dos defensores mais ferrenhos de suas obras tendem a omitir que muitas das modelos que ele pintou não foram exatamente “mulheres”, mas meninas adolescentes. Em “Meninas Nuas Reclinando-se” (1911), por exemplo, Schiele desenhou duas meninas que provavelmente estão no início da adolescência —ou são ainda mais jovens.

Uma delas olha para fora, para o espectador, enquanto a outra olha para baixo, corada. Seus corpos são desenhados com nitidez; seus cabelos longos fluem para baixo. A impressão é pornográfica, como se o espectador estivesse sendo convidado a deleitar-se sexualmente com a timidez das meninas. Mas havia mais que isso acontecendo.

A concepção da adolescência e o modo como ela era retratada artisticamente passavam por uma transformação significativa na época. Na Idade Média, era comum que adultos fossem pintados em brincadeiras infantis, enquanto crianças frequentemente eram retratadas usando roupas de adultos.

Foi apenas no final dos anos 1800 que um conceito mais contemporâneo de infância emergiu e que crianças passaram a ser mostradas como crianças, como na tela “Almoço no Estúdio” (1868), de Édouard Manet (1832-1883). Mesmo nesse quadro, contudo, o jovem de 16 anos no primeiro plano usa gravata, malha e chapéu de palha que seriam próprios de um senhor de meia-idade.

E só em 1895, quando Munch terminou de pintar “Puberdade”, em que mostra uma menina nua cobrindo a genitália com suas mãos cruzadas, que uma adolescente seria retratada pela primeira vez do modo como os adolescentes tendem a ser mostrados hoje: vulnerável e passando pela “dor da transição”, como escreve o historiador John Neubauer em seu excelente “The Fin-de-Siècle Culture of Adolescence”.

Já os retratos de adolescência feitos por Schiele parecem originar-se diretamente da sensibilidade de Munch, também refletida no Die Brücke (a ponte), um grupo de expressionistas alemães que incluiu Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938), Karl Schmidt-Rottluff (1884-1976), Otto Müller (1874-1930) e Emil Nolde (1867-1956).

A diferença crucial, contudo, entre os retratos da adolescência pintados por Schiele e os de Munch e da Brücke é que, como escreve Neubauer, “os artistas da Brücke usam o rosto para mostrar a sexualidade, sendo que Schiele a retrata em seu próprio centro” —ou seja, mostrava os órgãos sexuais das figuras que pintava. Schiele não era recatado.

Durante o período breve que se estendeu mais ou menos de 1895 a 1920, a adolescência foi vista como uma fase de transição, de maneira que se tornaria representativa do clima político austro-húngaro como um todo. Schiele levou um passo adiante as imagens provocantes de vulnerabilidade que estavam em voga na época, mas, como era o caso da Brücke, sua concepção fundamental da adolescência estava intrinsecamente ligada à política.

Em seu tempo, essa faixa etária começava a ser encarada como uma etapa fundamentalmente distinta da idade adulta. O erro típico do historiador amador é presumir que uma mentalidade contemporânea possa necessariamente ser extrapolada para o passado. No caso de Schiele, a compreensão dessa falácia é crucial para determinar o que era a exploração temática de uma nova fase da vida e o que era exploração pura e simples.

Os desenhos de Schiele que ganharam grande popularidade, realizados rapidamente em uma só sessão de trabalho, não eram meros receptáculos passivos do olhar masculino. Suas modelos nuas —muitas vezes retratadas olhando para o espectador com um misto de sensualidade e timidez— são, de fato, um ponto centralizador de tensão. Em vez de serem simplesmente pornográficas, as obras exigem que o espectador questione seus desejos tanto quanto o artista questionava os dele.

Schiele escreveu certa vez: “Será que os adultos se esqueceram de como eram corruptos, interessados em sexo e excitados por ele quando eram crianças? Esqueceram-se de como a paixão medonha os queimava e torturava quando eram crianças? Eu não esqueci, pois já sofri tremendamente por ela.”
Schiele morreu ainda jovem, aos 28 anos, da gripe espanhola. Suas últimas palavras teriam sido “a guerra terminou e eu preciso partir”.

Todos temos nossos demônios, nossas tensões, nossa destrutividade subjacente. Schiele usou os dele em sua arte para criticar o que via como uma sociedade excepcionalmente hipócrita, dominada por um novo movimento que encarava a sexualidade como sendo imoral, transviada, degenerada.

Visto sob essa ótica —e considerando como ele encarava a adolescência não apenas em termos políticos, mas como uma etapa fundamentalmente nova da vida a ser explorada—, o trabalho de Schiele, paradoxalmente, talvez seja mais moralmente justificável do que o contexto histórico em que ele viveu.

Entretanto, especialmente nos últimos anos, os museus que expõem suas obras geralmente têm se sentido na obrigação de incluir placas com informações sobre os aspectos controversos da vida pessoal do artista.

Um texto na parede do Museum of Fine Arts de Boston, por exemplo, que no ano passado promoveu uma exposição de trabalhos de Schiele e seu mentor, Gustav Klimt (1862-1918), dizia: “Schiele tem sido mencionado recentemente no contexto da conduta sexual imprópria de artistas presentes e passados. Isso se deve em parte a acusações específicas de sequestro e assédio sexual (que acabaram sendo retiradas por não terem fundamento)”.

Numa retrospectiva de Schiele promovida no museu Albertina, de Viena, que terminou em junho passado, o curador explicou que o espectador deve se sentir levemente perturbado pelas obras, já que isso faz parte do poder de subversão delas; a intenção é que elas nos obriguem a refletir acerca de nossos próprios desejos e relações com tabus sociais. “Enquanto Schiele retratou garotos sem qualquer tentativa de erotizá-los, ele sexualizava seus nus femininos”, diz um dos textos que acompanham as imagens.

A representação do corpo feminino sempre é erótica e parece criar uma relação com o observador, como se fosse selado um pacto secreto entre a jovem sedutora e o espectador seduzido. Rompendo os tabus da época, esses trabalhos mostram a sexualidade reprimida de crianças de maneira abertamente agressiva.
Outubro passado marcou o centenário da morte de Schiele. Fui ver duas mostras europeias sobre o artista.

A primeira foi na Fundação Louis Vuitton, em Paris. Organizada por Suzanne Pagé, diretora artística do museu, e Dieter Buchhart, curador, abrange mais de cem obras do austríaco. Pagé e Buchhart não pedem desculpas por Schiele. A exposição enfoca principalmente seu estilo, não as acusações feitas a ele como pessoa. Os trabalhos são apresentados em ordem cronológica, e os textos nas paredes nos incentivam a pensar sobre como seu uso de linhas mudou ao longo de sua trajetória.

Outra mostra de trabalhos do artista, em cartaz até 10 de março no museu Leopold, em Viena, vai mais além. Em lugar de desculpar-se pela controvérsia, implicitamente defende o tratamento dado às mulheres pelo artista. Um texto na parede diz: “Schiele mostrou que as mulheres são mais do que meras projeções de paixões, dando-lhes papéis diversos, permitindo que vasculhassem sua própria vida interior e apresentando a sexualidade com a maior franqueza possível. Seus retratos de mulheres se caracterizam pela busca da verdade”.

O texto afirma também que as modelos retratadas “têm consciência de seus próprios sentimentos”, destacando o senso de autonomia ao qual Kallir fez referência.

Os trabalhos de Schiele na mostra do Leopold estão justapostos aos de artistas mulheres contemporâneas, como Louise Bourgeois (1911-2010) e Sarah Lucas. Parece ser uma tentativa de contextualizar a obra do artista, talvez surpreendentemente, como uma espécie de feminismo precoce.

Verena Gamper, diretora do Centro de Documentação Egon Schiele do museu Leopold, escreve que a arte do austríaco apontou para “a maternidade como a imagem arquetípica do vínculo mais íntimo”.“A separação traumática”, ela escreve, “é estreitamente entremeada com uma aproximação da sexualidade e da morte, as forças principais que movem a vida”.

Outras defesas importantes de Schiele vêm sendo feitas. No final do ano passado, o conselho de turismo de Viena publicou uma série de anúncios no Facebook e em outdoors espalhados por Colônia, Hamburgo, Londres e Nova York em que os retratos nus do pintor são censurados por frases que condenam a censura.

(Vale lembrar que a nudez é proibida em anúncios no Facebook e em todas as cidades acima citadas, menos Nova York, mesmo a nudez em pinturas ou desenhos. Apenas um mural não censurado de um nu de Schiele conseguiu chegar ao mundo público: nas ruas Spring e Lafayette, em Nova York.)

Em um outdoor que mostra o quadro “Menina com Meias Cor de Laranja” (1914), de Schiele, a frase “sentimos muito, cem anos de idade, mas ainda hoje é ousado demais” cobre e oculta a genitália da menina. Em outros, a hashtag #DerKunstihreFreiheit (“liberdade para a arte”) está escrita sobre a obra, com uma faixa censurando os sexos.

No processo judicial Jacobellis versus Ohio, de 1964, que definiu a linha que separa arte de obscenidade (especificamente em relação ao filme “Os Amantes”, de Louis Malle), o juiz Potter Stewart declarou frase que ficaria famosa sobre a pornografia: “Eu a reconheço quando a vejo”.

Embora várias das telas de Schiele sejam sexualmente explícitas, com as pernas das figuras abertas e suas vulvas escancaradas, elas não são, estritamente falando, pornográficas. Isso não as absolve de sua natureza potencialmente exploradora, mas deixa a discussão mais complexa.

Como as exposições atuais fizeram bem em mencionar, enxergar as obras de Schiele como sendo unicamente sobre sexualidade é uma visão bastante estreita. Por exemplo, em “Eros” (1911), ele criou um autorretrato que o mostra encurvado, com a aparência doentia. Seu pênis vermelho e inchado ocupa boa parte da tela. É uma referência intencional a sua suposta degeneração. Ele parece estar dizendo que a verdadeira decrepitude está não em sua arte, mas no mundo.

Os trabalhos de Schiele refletiam seu tempo, e censurá-lo é ignorar tanto a história quanto os desejos tortuosos que todos temos. Ao lançar luz sobre esses anseios sombrios, Schiele ajudou a privá-los de seu poder.

Talvez nem toda obra de arte que fale de sujeitos moralmente ofensivos seja ela própria ofensiva. A moralidade de Humbert Humbert não é a moralidade do romance “Lolita”. Podemos retratar algo horrendo sem endossar o horror.

A arte é uma maneira de enfrentar a vida, mesmo ou especialmente em seus recantos mais funestos. Se não conseguirmos encarar a nós mesmos na arte, não conseguiremos nos encarar de maneira alguma —e essa é uma perspectiva muito mais perigosa que qualquer pintura ou desenho.

* Publicado no jornal Folha de São Paulo de 27 de janeiro de 2019, caderno ilustríssima.
Cody Delistraty é um escritor e crítico radicado em Paris.

Texto originalmente publicado na revista Paris Review; tradução de Clara Allain.

domingo, 10 de março de 2019

CIVILIZAÇÃO DÁ PASSOS ATRÁS

Parte do mundo, Brasil inclusive, regressa às trevas

Por Clóvis Rossi.

Gideon Rachman, um dos bons colunistas do Financial Times, está preocupado com o que supõe ser a perspectiva de o século 21 se transformar no século do "Estado Civilização", em contraponto ao "Estado Nação", que caracterizou o século 19.

O que seria o "Estado Civilização"? Seria aquele país que representa não apenas um território histórico ou um idioma particular ou um dado grupo étnico, mas uma civilização diferente. Uma ideia que estaria ganhando terreno na Turquia, na China, na Índia, na Rússia e mesmo nos EUA.

Já seria incômodo o avanço desse tipo de mentalidade, que, sempre segundo Rachman, teria implicações iliberais, na medida em que pressuporia que definições universais sobre direitos humanos e padrões democráticos perderiam valor, posto que "cada civilização necessita instituições políticas que reflitam sua cultura única".

Compartilho essa preocupação, mas ouso supor que o problema seja bem mais sério e mais imediato: o que está em curso nos países mencionados —e aos quais ouso acrescentar o Brasil de Jair Bolsonaro—não é a construção de uma nova civilização, mas um retrocesso importante no processo civilizatório.



Não vou discutir os casos de Turquia, China, Índia e Rússia, primeiro por falta de espaço e, segundo, por estarem distantes da realidade brasileira, ao contrário dos Estados Unidos.

O que Trump está fazendo por lá é retroceder aos piores momentos do patriotismo, já definido, faz uns 300 anos, como "o último refúgio dos canalhas" (para citar o escritor inglês Samuel Johnson, 1709-1784).

Um dos mantras preferidos do presidente americano ("America First") é irmão siamês do "Deutschland, Deutschland über alles" (Alemanha acima de tudo), primeira estrofe do hino nacional alemão. Felizmente, a democracia pós-nazismo resolveu sabiamente pular essa parte, para que, nas cerimônias oficiais, seja cantada apenas a terceira estrofe.

Preciso lembrar que "Deutschland über alles" embalou mais de uma guerra em que a Alemanha se envolveu, com as trágicas consequências conhecidas, inclusive para a própria Alemanha?

Voltar a esse grito, na América como no Brasil, não é pretender erguer uma nova civilização, mas um retrocesso claro no processo civilizatório que avançou, aos trancos, mas avançou nos últimos muitos anos.

No caso específico do Brasil, já escrevi, ainda durante a campanha eleitoral, que um candidato que elogia a tortura e idolatra o único torturador condenado pela Justiça, o coronel Brilhante Ustra, marca um retrocesso civilizatório, qualquer que fosse o resultado do pleito.

Não há civilização que possa ser construída com a louvação desse tremendo desrespeito à dignidade humana que é a prática da tortura.

O que veio depois só fez confirmar aquela avaliação. É civilizado chamar de "estadista" um ditador corrupto, torturador e suspeito de pedofilia, como o paraguaio Alfredo Stroessner? Bolsonaro o fez.

É civilizado separar crianças dos pais nas fronteiras dos Estados Unidos? Trump o fez, embora tenha recuado depois, sob pressão do público.

É civilizado pendurar nas redes sociais um vídeo pornográfico? Não, não estamos falando de novo conceito de civilização, mas de regresso às trevas.

* Publicado em jornal Folha de São Paulo de 7 de março de 2019.

quarta-feira, 6 de março de 2019

O PREÇO DA DEMOCRACIA

Por João Pereira Coutinho.

Passei uns dias em Londres e convivi com estudantes russos. Falamos de jovens com 22 ou 23 anos, primorosamente educados, e que estudam ciência política na pós-graduação.


Mas o mais impressionante foi a ausência de política nos seus discursos, se entendermos por política o confronto de ideias sobre diferentes concepções de vida e de organização social.


Teoricamente, eles sabem que assim é. Mas quando o assunto se aproximava da política doméstica, a atitude era uniforme: nenhum deles estava particularmente preocupado com Vladimir Putin e o seu regime.


Se eu fosse paranoico, diria que o temor deles era que eu fosse um agente russo disfarçado, pronto para denunciar os críticos do Kremlin. Mas o desinteresse era genuíno. Motivos?


Os mais básicos --em vários sentidos da palavra. Nunca a classe média russa viveu tão bem. Haverá vantagens em ter uma democracia liberal com eleições livres, separação de poderes, direitos e garantias --e não ter dinheiro para pagar as contas do mês?


Boa pergunta. Uma pergunta que o Fundo Monetário Internacional reforçou. Leio no Wall Street Journal que a instituição fez as suas projeções econômicas para os próximos cinco anos.



Uma ideia perturbante: o total do PIB dos países considerados "não livres" pela Freedom House será superior, pela primeira vez na história, ao valor da riqueza gerada pelas democracias ocidentais.


Para darmos nomes aos bois: as economias combinadas dos Estados Unidos, da Alemanha, da França e do Japão vão perder para o time da China, da Rússia, da Turquia e da Arábia Saudita.


No fundo, o que o FMI prevê é que a "narrativa democrática" está em risco. Em que consiste essa narrativa?


Na ideia otimista de que existe uma relação profunda entre democracia e prosperidade: quanto mais democrático um país, mais próspero ele será.


Pois bem: a emergência do "autoritarismo capitalista" desautoriza essa ideia. É possível combinar um governo de ferro com riqueza geral. Ou não é?


A resposta mais sincera é que não sabemos. Embora eu duvide da validade da tese a longo prazo. O sucesso do "autoritarismo capitalista" é fenômeno recente. Ainda há um futuro inteiro para provar.


Seja como for, o desafio é real. E a inquietação também. Se a única coisa que garante a superioridade da democracia liberal sobre o "autoritarismo capitalista" são os bons resultados econômicos, o que acontece quando essa vantagem se evapora?


A resposta, óbvia, é que a democracia liberal não pode se definir apenas pela economia. Para os meus amigos russos, questões de dinheiro fechavam qualquer debate.


Acontece que não fecham --e Alexis de Tocqueville sabia disso. Quando viajou pela América no século 19 e escreveu o monumental "Da Democracia na América", o francês já tinha alertado: o materialismo em excesso destrói o horizonte espiritual do homem.


Sem cultivar certos valores imateriais --"les moeurs", como os chama Tocqueville-- o caminho está aberto para a servidão.


Sim, até podemos ter todos os confortos nessa servidão. Melhor ainda: o governo déspota tem todo o interesse em que nos percamos em prazeres efêmeros, como se fôssemos crianças com novos brinquedos, sempre afastadas da mesa dos adultos. Mas isso não altera o nosso estado servil.


Por outras palavras: no seu marketing existencial, as democracias liberais deram muita atenção a questões econômicas. Mas as questões fundamentais são outras.


Qual a vantagem em participar nos destinos da minha sociedade?


Por que motivo a autonomia é preferível à submissão?


Que importância eu dou à liberdade em todas as suas formas --de expressão, de imprensa, de associação etc.?


E por que motivo é tão importante ter a possibilidade de remover os maus políticos sem derramamento de sangue, para usar a conhecida formulação de Karl Popper?


No fundo, essas são as questões perenes que sustentam o ideal democrático. Os meus amigos russos eram incapazes de responder a elas. Pior: essas perguntas nem sequer lhes ocorriam. Como se fossem relíquias de um tempo arcaico.


Se o mesmo acontecer entre os democratas ocidentais --e uso a palavra democratas por gentileza-- não há nenhum motivo para que a democracia liberal sobreviva.


Será preciso lembrar que, em crentes, acabou a crença?
*Publicado no jornal Folha de São Paulo em 5 de março de 2019, ilustrada, C4.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

OAKESHOTT PARA O SÉCULO 21

Por João Pereira Coutinho.


Em 1990, morria Michael Oakeshott. E os jornais britânicos, com seus generosos obituários, questionavam seriamente se o país tinha perdido o seu maior filósofo.

A pergunta deixou vários espíritos confusos. Espíritos refinados, para começar, que não tinham lido Oakeshott. Mas também pessoas “comuns”, vizinhas do dito filósofo, e que jamais pensaram que aquele velhinho simpático que vivia junto a elas, na zona rural do Dorset, era um homem de renome.

Sim, ele tinha por hábito dirigir pelas redondezas a velocidades alarmantes. Mas, tirando essa bizarria, habitava uma casa modesta com a mulher (a terceira ou a quarta, já não sei) e fazia questão de reparar os telhados ou cuidar do jardim. O maior filósofo britânico do século 20?

A culpa é do próprio, se culpa é a palavra certa. Escreveu muito. Publicou pouco. E a carreira acadêmica foi mínima. Mas vamos às apresentações.

Michael Joseph Oakeshott nasceu em 1901. Formou-se em história na Universidade Cambridge. Passou pelas universidades de Marburg e Tübingen. Serviu o país na Segunda Guerra Mundial.

E, em 1951, substituiu Harold Laski, um pensador marxista, na London School of Economics. De 1951 a 1968, a cátedra de ciência política foi dele. Quem assistiu às aulas nunca mais esqueceu o brilhantismo do homem.



Lamento por não ter assistido. Mas, se existe autor que releio sempre que posso, só para não me esquecer do essencial, é Oakeshott. O seu “Rationalism in Politics”, livro de ensaios, tem essa proeza rara de combinar grande filosofia com grande literatura. Como em Montaigne, que ele amava.

E o seu “On Human Conduct” —conhecido pelos alunos aterrorizados como “the black book”; e não é pela cor da capa— é uma obra-prima do pensamento político contemporâneo.

Enquanto esses livros não estão traduzidos no Brasil, existe “A Política da Fé e a Política do Ceticismo”, que a É Realizações acaba de editar com prefácio de Luiz Felipe Pondé, introdução de Timothy Fuller e posfácio do tradutor Daniel Neto.

É um trabalho póstumo, publicado em 1996, em que o autor se ocupa da “fé” e do “ceticismo” políticos, ou seja, sem nenhuma conotação religiosa (fé) ou filosófica (ceticismo). Defende Oakeshott que esses dois polos marcam a modernidade dos últimos cinco séculos ao apontarem ao poder político dois caminhos distintos.

A “política da fé” se alicerça na busca da perfeição terrena, procurando eliminar a ação da contingência ou a mera dúvida humana. É o produto da passagem do mundo medieval para o absolutismo monárquico, quando um brutal acréscimo de poder alimentou nos teóricos e nos príncipes a noção prometeica de que era possível refazer o mundo.

Nesses alvores da modernidade, encontramos também a “política do ceticismo”. Não como resposta direta à “política da fé”; mas como um entendimento distinto da natureza e do alcance do poder.

Para os partidários do ceticismo, a função de um governo é manter um conjunto de direitos, deveres e formas de reparação —um “modus vivendi”— sem pretender dirigir uma sociedade a um fim determinado. São os homens que devem escolher os seus fins, sem a tutela paternal de um governante.

A proposta de Oakeshott é importante porque abandona as divisões clássicas entre esquerda e direita, nascidas no contexto da Revolução Francesa.

Como o autor explica, é possível encontrar seguidores da fé e do ceticismo em todas as famílias políticas, uma evidência que a história não se cansa de provar. Os monismos perfectibilistas do comunismo ou do nazismo são duas expressões de fé; mas qualquer ideologia política antipluralista, seja de esquerda ou de direita, está mais próxima da fé que do ceticismo.

Porém, não se pense que só a “política da fé” tem consequências ruinosas. O ceticismo também pode ser acometido pela sua “nêmesis” característica: a paralisia e o relativismo.

O livro de Oakeshott, como qualquer grande obra de filosofia, não envelheceu uma ruga. Basta contemplar a política ocidental para vermos como a tentação dos extremos domina a selva pública.

De um lado, o fanatismo da fé, a arrogância simiesca de quem acredita ter na mão a chave da história.

Do outro lado, a estagnação e a frivolidade de quem é incapaz de reformar ou liderar racionalmente as democracias ocidentais. A via média entre os extremos, defendida por Oakeshott, está hoje abandonada.

É um cenário que dá vontade de desaparecer. Exatamente como Oakeshott desapareceu na paisagem belíssima da Inglaterra rural.

* Folha de S.Paulo, 18.12.2018, ilustrada, C6.

sábado, 18 de agosto de 2018

ELEIÇÕES 2018



Do torneiro mecânico à antítese do capitão do exército, que síntese virá?

Jorge Quadros.


BELEZA

Por Jorge Quadros.


A beleza na pessoa não está nos músculos, na pele, nos olhos, nos pelos e cabelos, nos tratamentos, muito menos na roupagem. Ela está no espírito, no seu estado de espírito, na sua graça, naquilo que lhe infla o corpo e faz erguer-se, mover-se e sorrir para a vida. Eis a pessoa bela!



sexta-feira, 22 de junho de 2018

A POLÍTICA DA DECÊNCIA

Antes de saber se é de esquerda ou de direita, pergunte: o que diria minha avó?


Por João Pereira Coutinho.


A Bíblia tem as costas largas. Em 1938, depois da infame Noite dos Cristais na Alemanha —uma sucessão de ataques antissemitas que serviram apenas de aperitivo para o Holocausto—, o Reino Unido decidiu agir: era preciso salvar as crianças da Alemanha e do Leste Europeu, permitindo que elas viajassem para Londres para serem acolhidas por famílias inglesas.

Assim foi —e quem assistiu ao documentário "Nos Braços de Estranhos" não esquece: 10 mil terão chegado a Londres entre 1938 e 1939, na esperança de que os pais viessem a seguir.


Não é preciso contar o resto da história. Mas é preciso contar por que motivo os Estados Unidos não abriram as portas com a mesma generosidade: o Congresso não permitiu. Segundo a filosofia triunfante de 1939, separar os filhos dos pais era um ato contrário à Bíblia e às leis de Deus.


Avancemos para 2018. Informa esta Folha que, só entre meados de abril e final de maio, cerca de 2.000 crianças foram separadas dos progenitores, imigrantes ilegais, na fronteira sul dos Estados Unidos.


Para o procurador-geral do país, Jeff Sessions, o procedimento é inteiramente bíblico. Aplicar a lei do Estado é respeitar a vontade de Deus.


Existem duas formas de olhar para o caso. A primeira é vestir a camiseta da pequena política e debater o assunto sob o chicote da ideologia.


Para Trump, a lei foi feita pelos democratas; se os democratas não gostam da lei, devem colaborar com a administração republicana para mudá-la.


Para os democratas, o problema não está na lei; está na "política de imigração" de Trump, que usa a separação forçada como uma dissuasão para imigrantes potenciais.


Não entro no debate. Embora seja inevitável acrescentar que a esmagadora maioria dos juristas norte-americanos nega que a lei, ou qualquer decisão judicial, determine a separação de pais e filhos.



O meu ponto é outro: às vezes, é preciso recuar um passo, abandonar a selvajaria do debate político, só para não perder um certo "sentido de decência".


Esse "sentido de decência" não vem nos livros ou nos códigos. Não se aprende em universidades ou, Deus me livre, redes sociais.


"Decência" significa apenas termos a capacidade mínima de nos colocarmos no lugar dos outros. Para quê? Para imaginar, através de um exercício de substituição e simpatia, as provações de terceiros (obrigado, Adam Smith).


Esse "sentido de decência" não existiu em 1939 nem existe em 2018. Separar pais e filhos para salvar os filhos era o mal menor em 1939. A atitude correta, lógico, teria sido salvar ambos.


Em 2018, essa separação é o mal maior: se a imigração ilegal é um caso sério, encontrar uma forma legal de deter as famílias, sem as desmembrar, seria o gesto mais decente de acordo com as circunstâncias. Depois, a justiça que fizesse o seu caminho.


Mas não se pense que essa ausência de decência é um exclusivo de Trump. Na Europa, um navio com 629 refugiados, entre os quais mulheres grávidas e crianças, andou a vaguear durante dias pelo mar mediterrânico. Itália fechou as portas ao navio e Espanha, "in extremis", aceitou o desembarque em Valência.


Longe de mim ignorar o problema do impacto da crise migratória na Europa: não é possível acomodar todo o Oriente Médio no continente e eu sei disso.


De igual forma, esperar que a Itália (e a Grécia, já agora) seja o único destino dos refugiados —Itália recebeu 700 mil desde 2013— é uma receita para o desastre. Ou, melhor dizendo, para a vitória: da extrema direita, obviamente.


Mas, uma vez mais, há um "sentido de decência" que é anterior a qualquer discussão política. Quando existem 629 seres humanos à deriva no Mediterrâneo, o primeiro dever é resgatá-los.


Saber o que fazer com eles; saber quantos podem ficar na Europa; saber quantos representam uma ameaça para a segurança interna; saber quantos devem ser deportados —tudo isso são questões necessárias depois da água, da comida e do abrigo.


Era um personagem de Oscar Wilde quem dizia: as boas maneiras são anteriores à moral.


Adaptando essa máxima à política contemporânea, dominada pelo sectarismo do esgoto virtual, antes de você saber se é de esquerda ou de direita faça uma pergunta mais básica perante qualquer dilema: o que diria a minha avó a respeito?


Isso, claro, se você conheceu sua avó. E se sua avó era uma mulher com maneiras.



* jornal Folha de São Paulo de 19.06.2018.













terça-feira, 31 de outubro de 2017

ANNA KARIÊNINA - IV

O aspecto do irmão e a proximidade da morte fizeram ressurgir, na alma de Liévin, aquele sentimento de horror diante do indecifrável, e também da proximidade e da inevitabilidade da morte, que o dominara naquela noite de outono, em que o irmão viera à sua casa. Tal sentimento era agora ainda mais forte do que antes; sentia-se ainda menos capaz do que antes de entender o sentido da morte e lhe parecia ainda mais horrorosa a sua inevitabilidade; mas agora, graças à proximidade da esposa, esse sentimento não o levava ao desespero: apesar da morte, ele sentia a necessidade de viver e de amar. Sentia que o amor o salvara do desespero e que esse amor, sob a ameaça do desespero, se tornava ainda mais forte e mais puro.
O mistério da morte mal tivera tempo de se desvendar diante de seus olhos, permanecendo indecifrável, quando irrompeu um outro, igualmente indecifrável, que o  impelia a amar e a viver.
O médico confirmou sus suspeitas a respeito de Kitty. Seu mal-estar era a gravidez.

(Anna Kariênina, Liev TOSTÓI, Trad. Rubens Figueiredo, São Paulo: Cosacnaify, 2013, pp. 495 e 496).


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

ANNA KARIÊNINA - III

— O senhor agiu mal, muito mal.
— E acaso ignoro que agi mal? Mas quem foi a causa de eu ter agido assim?
— Por que o senhor me diz isso? — perguntou Anna, lançando-lhe um olhar severo.
— A senhora sabe o por quê — respondeu, com audácia e alegria, encarando seu olhar, sem desviar os olhos.
Não ele, mas ela sim perturbou-se.
— Isso apenas vem mostrar que o senhor não tem coração — disse Anna. Mas seu olhar dizia que ela sabia que Vrónski tinha coração e por isso o temia.
— Isso a que a senhora se referiu foi um engano, e não amor.
— O senhor lembre que eu o proibi de pronunciar esta palavra, esta palavra detestável — disse Anna, sobressaltada; mas no mesmo instante se deu conta de que com aquela palavra, proibi, mostrava que reconhecia ter certos direitos sobre ele e, por isso mesmo, o incentivava a falar de amor.— Há muito eu queria dizer isto ao senhor — prosseguiu, fitando decidida os olhos de Vrónski e toda ela ardendo, no rosto corado que queimava — e hoje vim aqui de propósito, sabendo que o encontraria. Vim dizer ao senhor que esto deve terminar. Nunca me ruborizei diante de ninguém, mas o senhor me obriga a me sentir culpada.
Ele a fitou e ficou impressionado com a nova beleza espiritual do seu rosto.
— O que a senhora quer de mim? — perguntou, de modo simples e sério.
— Quero que vá a Moscou e peça desculpas a Kitty — respondeu Anna, e uma pequenina luz começou a cintilar em seus olhos.
— A senhora não quer isso — disse ele.
Vrónski notava que Anna dizia aquilo que se obrigava a dizer e não o que desejava.
— Se o senhor me ama, como diz — sussurrou —, faça isso, para que eu fique em paz.
O rosto de Vrónski iluminou-se.
— Acaso ignora que a senhora é toda a minha vida! Mas, paz eu não conheço e não posso lhe dar. Todo o meu ser, o amor... sim, posso. Não consigo pensar na senhora e em mim separados. A senhora e eu somos um só, para mim. E não vejo, no futuro, nenhuma possibilidade de paz, nem para mim, nem para a senhora. Vejo a possibilidade de desespero, de infelicidade... ou vejo a possibilidade de felicidade, e que felicidade!... Será mesmo impossível? — acrescentou, só com os lábios; mas Anna ouviu.
Com toda a força do pensamento, Anna se obrigava a dizer o que devia ser dito; mas, em vez disso, concentrou no olhar dele o seu próprio olhar, repleto de amor, e nada respondeu.
"Aí está ele!", pensou Vrónski, com um arroubo. "Quando eu já começava a perder a esperança e quando parecia que isso não ia mais ter fim, aí está ele! Ela me ama. E o admite."
— Então, faça isto por mim, nunca mais me diga essas palavras e sejamos bons amigos — pediu a voz de Anna, mas seus olhos diziam algo bem diferente.
— Não seremos amigos, a senhora sabe disso. Seremos os mais felizes ou os mais infelizes dos seres humanos. Isto está em suas mãos.
Anna quis dizer algo, mas ele a interrompeu.
— Só lhe peço uma coisa, o direito de esperar, de sofrer, como agora; mas se isso também for impossível, mande que eu desapareça, e eu desaparecerei. A senhora não mais mais me verá, se a minha presença lhe for penosa.
— Não tenho a intenção de banir o senhor.
—Apenas não mude nada. Deixe tudo como está — disse ele, com voz trêmula.

(Anna Kariênina, Liev TOSTÓI, Trad. Rubens Figueiredo, São Paulo: Cosacnaify, 2013, pp. 147 e 148).



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

ANNA KARIÊNINA - I

(...) Toda vez que Vrónski falava com Anna, inflamava-se nos olhos dela um brilho de contentamento, e um sorriso de felicidade arqueava seus lábios rosados. Anna parecia fazer um esforço contra si mesma para não demonstrar esses sintomas de contentamento, mas eles sobressaíam, por si mesmos, em seu rosto. "Mas e quanto a ele?" Kitty observou Vrónski e horrorizou-se. Aquilo que Kitty pressentira tão claramente no espelho do rosto de Anna, reconheceu em Vrónski. O que havia acontecido com a sua maneira sempre calma e firme e com a expressão serena e despreocupada do seu rosto? Não, agora, toda vez que ele se voltava para Anna, curvava um pouco a cabeça, como se quisesse atirar-se diante dela, e no olhar de Vrónski só havia uma expressão de submissão  e de temor. "Não desejo ofendê-la", parecia dizer o seu olhar, a cada instante, "mas quero salvar-me, e não sei como". Em seu rosto, havia uma expressão que Kitty jamais vira".

Anna sorria, e seu sorriso contagiava Vrónski. Ela se punha pensativa, e ele se fazia sério. Alguma força sobrenatural atraía os olhos de Kitty na direção do rosto de Anna. Ela estava encantadora em seu simples vestido preto, eram encantadores seus fornidos braços com braceletes, era encantador o seu pescoço firme com o cordão de pérolas, encantadores os cabelos encaracolados com o penteado em desalinho, encantadores os movimentos leves e graciosos dos pequeninos pés e mãos, encantador o belo rosto com sua vivacidade; mas havia algo de horrível e de cruel no seu encanto.

(Anna Kariênina, Liev TOSTÓI, Trad. Rubens Figueiredo, São Paulo: Cosacnaify, 2013, pp. 91, 92 e 93).







ANNA KARIÊNINA - II

— Eu não sabia que o senhor ia viajar. Por que viaja? — perguntou Anna, depois de baixar a mão, com que quase havia segurado o balaústre. E uma alegria e um entusiamo irresistíveis brilharam em seu rosto.
— Por que viajo? — repetiu ele, fitando-a nos olhos. — A senhora sabe, eu viajo para poder estar onde a senhora estiver — disse. — Não posse agir de outro modo.
Nesse exato momento, como se estivesse vencido um obstáculo, o vento dispersou em borrifos a neve que estava depositada sobre os vagões, fez trepidar alguma chapa de ferro solta e a locomotiva, lá na frente, pôs-se a bramir o apito penetrante, de um modo lúgubre e tristonho. Para Anna, todo o horror da nevasca parecia, agora, ainda mais belo. Vrónski falara exatamente  o que a alma de Anna desejava, mas que sua razão temia. Ela nada respondeu e, em seu rosto, Vrónski viu um conflito.
— Perdoe-me, se o que eu disse não lhe agrada — disse ele, em tom submisso. Falava com cortesia e respeito, mas de um modo tão firme e tenaz que ela, por um  longo tempo, nada conseguiu responder.
— Não está certo o que o senhor disse e eu lhe peço, ser for um homem correto, que esqueça o que acabou de falar, como eu vou esquecer — respondeu, afinal.
— Não posso e nunca esquecerei uma palavra da senhora, nem um movimento da senhora...

(Anna Kariênina, Liev TOSTÓI, Trad. Rubens Figueiredo, São Paulo: Cosacnaify, 2013, p. 111 e 112).



terça-feira, 10 de outubro de 2017

CHE GUEVARA É VENERADO PORQUE TEM SANGUE VERDADEIRO PARA MOSTRAR

Por João Pereira Coutinho

Che Guevara morreu há 50 anos e ainda há quem lhe conceda o benefício da dúvida. Na semana passada, recebi um convite para um "debate" sobre Guevara e o seu legado. Pensei que era piada. Ainda perguntei: "Vocês querem saber se ele matou muito ou pouco?".
Ninguém riu. A ideia era mesmo "debater". Eu estaria entre os "críticos" (muito obrigado) e, do outro lado da mesa, estariam os apologistas. Recusei.
Aliás, quando o assunto são psicopatas, eu recuso sempre —uma questão de respeito pela minha própria sanidade. Nunca me passaria pela cabeça debater seriamente o Holocausto com um negacionista. Por que motivo o comunismo seria diferente? Escutar alguém a defender a União Soviética é tão grotesco como estar na presença de um neonazi a defender Hitler e o Terceiro Reich.
De igual forma, também nunca me passaria pela cabeça convencer terceiros sobre a monstruosidade do nazismo —ou a do comunismo. Como se ainda houvesse dúvidas.
Não há -e, no caso de Guevara, o próprio deixou amplos testemunhos a comprovar a sua excelência. O culto do ódio; a excitação do cheiro a sangue; a necessidade de um revolucionário ser uma "máquina de matar" -o Che não enganava.
E os fuzilamentos, que ele executou ou mandou executar, são ostentados pelo nosso Ernesto como se fossem medalhas na farda de um general. A criminalidade de Che Guevara não é questão de opinião. Isso seria um insulto ao próprio.
Mas há um ponto que me interessa sobre o Che: a sua sobrevivência como símbolo. Atenção: não falo de adolescentes retardados que desconhecem o verdadeiro Che e ostentam na camiseta o retrato que Alberto Korda lhe tirou. A adolescência é uma fase inimputável que, nos piores casos, pode durar uma vida inteira.
Não. Falo dos intelectuais que, conhecendo Che Guevara e o seu "curriculum vitae", o canonizam sem hesitar. O que leva pessoas inteligentes a aplaudir um criminoso?



O sociólogo Paul Hollander dá uma ajuda no seu "From Benito Mussolini to Hugo Chávez - Intellectuals and a Century of Political Hero Worship". O título, apesar de longo, é importante.
Em primeiro lugar, porque Hollander não discrimina entre "direita" ou "esquerda". O totalitarismo só tem um sentido —a sepultura.
Em segundo lugar, porque não é a natureza dos regimes que interessa ao sociólogo; é a devoção dos intelectuais pelos "heróis" revolucionários do século.
No caso de Che, existem explicações históricas —e psicológicas.
As históricas lidam com a Revolução Cubana de 1959, ou seja, três anos depois de Nikita Khrushchev ter denunciado os crimes do camarada Stálin.
A desilusão foi profunda —e, para a "nova esquerda", a União Soviética deixava de ser o farol da humanidade. Era apenas mais um estado opressor (como os Estados Unidos, claro) que atraiçoara a beleza do ideal marxista.
A partir da década de 1960, os "peregrinos políticos" (expressão de outro livro famoso de Hollander) passaram a ver o Terceiro Mundo —Cuba, China, Vietnã, Nicarágua— como o paladino virginal da libertação do homem. Fidel Castro e o seu ajudante Che Guevara ocuparam os papéis principais como "bons selvagens".
Mas existe um motivo suplementar para Che palpitar no peito dos intelectuais, escreve Hollander: o fato de ele não ser um intelectual "defeituoso".
Uma história ajuda a compreender o adjetivo: em 1960, Sartre visitou Cuba e comoveu-se com as confissões de Fidel. "Nunca suportei a injustiça", disse o Comandante. Sartre concluiu que Fidel entendeu como ninguém "a inanidade das palavras".
Tradução: não basta falar contra o imperialismo/capitalismo/colonialismo; é preciso agir. Che Guevara, que Sartre batizou como "o mais completo ser humano do nosso tempo", simboliza essa totalidade. Alguém que não se fica pelas palavras —e passa aos atos. Che Guevara é venerado porque tem sangue verdadeiro para mostrar.
É um erro afirmar que os "intelectuais revolucionários" que admiram Che Guevara continuam a prestar-lhe homenagem apesar da violência e do crime. Pelo contrário: a violência e o crime estão no centro dessa homenagem.
Che sobrevive porque foi capaz de ser o "anjo exterminador" que todos eles sonharam e não conseguiram. 

*Publicado em jornal Folha de São Paulo de 10 de outubro de 2017.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

EXISTÊNCIA

A existência está esperando. Quando vê que você está trabalhando por si mesmo, ela não interfere. Ela espera. Pode esperar infinitamente porque a existência não tem pressa. Ela é a eternidade.Mas no momento em que você não está mais agindo por si mesmo — no momento em que você desiste, no momento em que você desaparece — toda a existência se precipita na sua direção, penetra dentro de você. E pela primeira vez as coisas começam a acontecer.

OSHO, Autobiografia de um místico espiritualmente incorreto, São Paulo: Planeta, 2016, p. 98 e 99.


quinta-feira, 20 de julho de 2017

HITLER, O MEDÍOCRE VAGABUNDO

Por Jorge Quadros

Quando achamos que já sabemos tudo sobre o nazismo, surgem novas informações. Nossa interpretação evolui, assim como nossa maturidade nos ajuda a entender e a compreender melhor os fatos.
Recente documentário na Netflix (Hitler: uma carreira, direção Joachim Fest e Christian Herrendoerfer, Alemanha, 1977) demonstra que Hitler era um vagabundo: nunca trabalhou na vida. Nunca foi tirada uma foto sua trabalhando na sua escrivaninha na Chancelaria; nunca fora realizada uma reunião na mesa de conselho de ministros.

Hitler vivia viajando dentro do País, para fazer discursos o tempo todo, porque só isso lhe dava prazer na vida. Gritar, rosnar, gesticular e receber Heil Hitler. Discursos vazios, estéreis, que não diziam nada com nada. "Alemanha acima de todos", o tempo todo. Vingança, raça superior, etc. Discursos de ódio, com representação caricaturesca. Um farsante escolhido pelo povo, que sabia muito bem quem ele era e quais os seus propósitos. Ele deixara claro isso, porque escrevera o livro Minha Luta quando preso, no início de sua tragicomédia.
Hitler, porém, deixou vários legados para o mundo, a maior parte deles contrários a seus interesses:
1) criação do Estado judeu; 2) Muro de Berlim durante décadas; 3) tabu e vergonha para o alemão comentar a guerra com pessoas de outras nacionalidades (japoneses e italianos não têm esse problema); 4) criminalização do antissemitismo; 5) invasão muçulmana na Alemanha; 6) destruição da Alemanha e da Europa (arte, história, arquitetura etc); 7) Mercado Comum Europeu e depois união política (internacionalismo, em vez de nacionalismo); etc.
Hitler era mesmo um vagabundo. Complexado pela pobreza em Viena, em vez de progredir com o estudo e o trabalho, passou à política com o discurso do ódio. Se tivesse se deixado levar pela ideologia marxista, teria transferido seu ódio para os "capitalistas", "burgueses", "banqueiros" e "classe média" (isso, aliás, lembra o discurso da filósofa petista Marilena Chauí), mas, miserável como era de espírito e cultura, tomou um caminho irracional e obscuro: preferiu transferir o ódio aos vitoriosos da I Guerra Mundial e aos judeus.
O povo alemão, que certo dia produzira a 9ª Sinfonia (Beethoven) e escrevera Fausto (Goethe), quis e venerou o vagabundo.